06 junho 2016

Resenha: O Evangelho Segundo Jesus Cristo

Durante muito tempo eu quis ler algum livro do Saramago, pensei em começar por "Ensaio Sobre a Cegueira", mas acabei começado por "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", que foi publicado no ano em que eu nasci e que tem mais em comum comigo do que a idade. 


Sinopse: "Menos interessado na onipotência do divino que na frágil mas tenaz resistência do humano, Saramago reconta de forma irônica e crítica uma das histórias mais conhecidas no ocidente, dotando-a de corpo, cheiro, sensações, ambiguidades e novos significados recônditos."

A primeira coisa que você fica sabendo sobre Saramago é que a escrita dele é muito difícil, que ele não é chegado a parágrafos e pontuações, e isso é verdade, é a primeira coisa que você vai perceber que ele tem uma maneira diferente de escrever, a narração é como se fosse um fluxo de pensamento, ele vai contando como se estivesse do seu lado lhe contando uma situação. Não vou negar que no começo estranhei a escrita, mas com o desenrolar do livro eu acabei me acostumando e até gostando.

Muita gente fala que a escrita do Saramago dificulta a leitura da suas obras, mas pra mim, especialmente nesse livro, o que dificulta é a intensidade e a profundidade do tema abordado. Falar sobre a Bíblia é um tabu, principalmente se você acredita e uma versão diferente dos fatos, e "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" é exatamente isso uma versão dos fatos diferentes, a vida de Jesus por outra perspectiva, que para muitos Saramago é ofensivo, mas pra mim foi uma maneira diferente de contar a tão conhecida história do filho de Deus.

Saramago é ateu, então era de se esperar que ele criticaria as ideias da igreja neste livro. Durante todo o texto você percebe que ele estudou as escrituras a fundo e resolveu criar uma nova versão, que em vários momentos para mim fez muito mais sentido. O autor vai questionar a todo momento a ideia do Deus castigador, que está sempre observando, esperando um deslize para punir o pecador, um deus que tem sede de controle e de poder. O que me fez gostar bastante da história, uma vez que eu mesma já questionei o fato de muitas religiões pregarem um Deus carrasco. 

Além de questionar a imagem de Deus, Saramago cria um novo Jesus Cristo, um homem de carne e osso, que diferente da Bíblia, falha, tem medo, se entrega aos prazeres da carne e é muito mais a imagem e semelhança de um homem. E acho que a humanização de Jesus não o desacredita, mas o mostra muito mais forte e real.

Um dos pontos em que o filho de Deus é mostrado como um homem é quando ele se encontra com Maria Magdala, que pra mim é uma das personagens mais encantadoras de toda a história. O amor e a devoção que ela entrega a ele é admirável, em momento nenhum a relação carnal deles, atrapalha na missão que ele tem que cumprir, pelo contrário, Magdala está sempre ao lado dele, apoiando e acreditando, ela é uma das seguidoras mais fiéis do messias.

Se por um lado temos Maria Magdala retratada de uma forma muito doce por Saramago, temos as mulheres em todo livro sendo tratadas como inferiores, o machismo é explicito principalmente na relação de José e Maria. Claro, que acredito que isso também foi uma crítica do autor, a toda a ideia da Bíblia de que a mulher tem que ser submissa ao marido.

Por fim a crítica final fica por conta da comparação entre Deus e o Diabo, que em vários aspectos são muito semelhantes. Saramago coloca o dedo na ferida e diz que os dois tem muito em comum. Então o autor fecha o livro mostrando que as duas forças caminham lado a lado.

"O Evangelho Segundo Jesus Cristo" é livro denso, daqueles que você termina de ler e ficar por um tempo tentando absorver. Não é uma leitura fácil, você não vai ler em poucos dias ou em apenas uma sentada, porque tudo ali precisa ser refletido e absorvido. Um livrão que todos precisam ler. 

Até o próximo post!

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